A origem da palavra nostalgia tem uma interpretação um tanto triste. Etimologicamente derivada das palavras gregas nostos e algos, que significam retorno e sofrimento, a nostalgia foi muito utilizada para retratar a melancolia e tristeza desenfreada pela saudade de casa, como acontece na jornada do herói Odisseu, na obra Odisseia, de Homero, que em uma longa trajetória para voltar a sua terra, viveu com intensidade a vontade de retornar (nostros), o que lhe causou muita dor (algos). Contudo, hoje, a nostalgia evoluiu e tem novos significados e cores. Ela pode ser associada ao conforto de uma lembrança feliz ou transmitir um sentimento de pertencimento.
Vista com novos olhos, a nostalgia está presente no dia a dia de diversas formas. Pode ser ao comer alguma comida com o mesmo sabor da infância, um cheiro que lembra casa de vó ou uma memória especial quando se encontra uma foto antiga no fundo da gaveta. Aqui
nesta série, a nostalgia será retratada como uma lembrança feliz com assuntos do mundo do entretenimento que marcaram não uma, mas várias gerações. Seja a nostalgia pelos anos 2000, anos 90, 80 ou 70, não importa a idade, o que vale é trazer à tona boas memórias de
um tempo que não volta mais. Na matéria desta edição, o foco será em um fenômeno repleto de histórias e personagens únicos. As novelas já fizeram milhares de famílias se reunirem no sofá para acompanhar novos capítulos de enredos dramáticos ou engraçados, finais felizes ou nem tanto, a vingança do mocinho ou a redenção do vilão.
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Era outubro de 2012, nove horas da noite e praticamente todo o país estava sentado no sofá com os olhos vidrados na TV. Algumas eram de tubo, outras de LCD, independente da qualidade, os tamanhos e variedades se assemelhavam as milhares de famílias reunidas para assistir ao último capítulo da novela “Avenida Brasil” (2012). O fenômeno foi tão grande que o fim da guerra entre Carminha e Nina quase causou um apagão em todo o país, as ruas ficaram vazias, festas e compromissos foram desmarcados, enfim, a repercussão foi astronômica. E essa não foi a primeira vez que uma novela impactou o Brasil de tal forma, novelas como “Roque Santeiro” (1985), “Tieta” (1989) e “Vale Tudo” (1988) também mobilizaram milhares de pessoas até os sofás para acompanhar um novo capítulo dos dramas.

Fotógrafo Eberson Teodoro (Foto Fábio Audi)
Tem mais de 70 anos desde que a história da teledramaturgia brasileira teve início. A estreia de “Sua Vida me Pertence”, lançada pela extinta Tupi em dezembro de 1951, deu início a um novo capítulo do entretenimento no Brasil, marcando milhares de vidas das gerações que vieram a seguir. Esse foi o caso do fotógrafo Eberson Teodoro, 38 anos, que começou a assistir novelas ainda criança com a mãe. “Lembro de
ter assistido Carrossel, lá em 1991, quando tinha uns cinco anos de idade. Mas comecei mesmo a acompanhar de forma constante a partir da novela ‘A Viagem’, exibida pela TV Globo em 1994”, relembra. Formada por um elenco com Antônio Fagundes, Ary Fontoura, Laura Cardoso e Christiane Torloni, “A Viagem” (1994) foi uma novela baseada na doutrina espírita kardecista que contou a história de Alexandre, interpretado por Guilherme Fontes, o vilão da trama que, depois de morto, volta do Vale dos Suicidas para se vingar de todos que acredita serem responsáveis por seu trágico fim. Hoje, a novela é relembrada na Internet e originou vários memes, entre eles a camiseta da Madonna, utilizada por Nair Bello no primeiro capítulo do clássico, e as montagens de Alexandre nos mais diversos cenários.
E por falar em memes, de vez em quando a Internet revive novelas de dez, vinte, trinta anos atrás. Quem nunca usou o meme da Nazaré
Tedesco, de “Senhora do Destino” (2004), para representar alguma confusão, ou gritou em plenos pulmões “eu sou rica” para relembrar a Norma de “Beleza Pura” (2008)? Mas a popularidade com os memes não é a única influência que as novelas deixam para trás. “São muitos os exemplos. Desde a moda, comportamentos, assuntos do cotidiano, até locais a serem visitados. Quantas pessoas não tiveram o sonho de ir ao Rio de Janeiro em parte influenciado pelas telenovelas? Isso sem levar em conta as questões sociais: a novela ‘Explode Coração’ (1992), de Glória Perez, ajudou a encontrar mais de 60 crianças desaparecidas por meio de uma campanha abordada nesta novela. Em ‘Laços de Família’ (2000), de Manoel Carlos, o número de inscritos para doação de medula saltou de 20 para 900 em dois meses enquanto uma das personagens principais sofria de leucemia na trama”, exemplifica. Eberson destaca também, que abordar assuntos sérios como alcoolismo, violência doméstica, prevenção do câncer de mama, entre muitos outros, são um papel fundamental das novelas, conscientizando e sensibilizando os telespectadores.
VIDAS MARCADAS POR HISTÓRIAS E PERSONAGENS
O sentimento de pertencimento proporcionado pelas novelas pode ser relacionado a suas histórias, bem como aos personagens, que apresentam suas próprias personalidades, problemas de vida e desenvolvimento dentro do enredo. Unindo esses dois elementos de uma obra as suas qualidades técnicas, como a trilha sonora, direção e cenário, são possíveis marcar toda uma década. Para Eberson, esse é o caso de “Dancin’ Days” (1978), que colocou a discoteca em pauta para todo o país com figurinos que retrataram a moda dos anos 70 com maestria. Nos anos 80, o fotógrafo destaca “Vale Tudo” como uma novela que fez o país refletir sobre honestidade e corrupção, temas que são atuais até hoje. Os anos 90 podem ser relembrados por uma campeã em vendas de trilha sonora que ainda sustenta o título, a novela “O Rei do Gado” (1996) já reprisou dezenas de vezes na tela do “Vale a Pena Ver de Novo” e segue quebrando recordes a cada reexibição. Já nos
anos 2000, Eberson destaca “Laços de Família”, retratando mais uma Helena de Manoel Carlos, já na década seguinte, o pódio fica com “Avenida Brasil”, a novela que foi capaz de parar o país.
Além das escolhas pessoais do especialista noveleiro, outras queridinhas do público são Tieta (1990), Mulheres de Areia (1993), Renascer (1993), O Clone (2001), “Chocolate com Pimenta” (2003), Mulheres Apaixonadas (2003), América (2005) e A Favorita (2008). Todas apresentaram expressões, modas, trejeitos únicos, possíveis de se escutar na boca do povo até hoje, Ishalá.
O QUE ACONTECEU COM AS NOVELAS?
Algumas foram tão marcantes em suas propostas que tiveram remakes, como “Guerra dos Sexos” em 1983 e 2012, “Pantanal” em 1990 e 2022,
“Renascer” em 1993 e 2024, “Ti-Ti-Ti” em 1985 e 2010, entre tantas outras. Contudo, é possível notar algumas diferenças entre os telespectadores do passado e os da atualidade para as readaptações mais recentes. Para Eberson, o hábito de sentar-se em frente a um televisor para assistir à novela mudou muito. “Hoje a audiência está pulverizada. A TV Globo, sobretudo, mantinha uma hegemonia na sintonia dos televisores. Antes era somente a TV aberta, depois veio o videocassete, em seguida a TV a cabo. Mas ainda a população das classes C, D e E não tinham acesso as outras tecnologias senão a TV aberta. Com a popularização da internet, redes sociais e streamings isso mudou. Agora a TV aberta não tem mais a mesma audiência, mas o curioso é que esta mesma TV aberta ainda é pauta para a internet.
Hoje eu vejo que uma se alimenta da outra”, explica. Esta correlação também pode explicar como as novelas de hoje são adaptadas para esse novo público. “O ritmo é outro, a concorrência com a internet forçou a tradicional telenovela brasileira a ser mais ágil e dinâmica”, acredita. Com uma “nova fase” das novelas, Eberson deixou de acompanhar os últimos lançamentos, seu interesse se encontra na nostalgia transmitida pelas novelas do passado. “Gosto de ler jornais e revistas antigos e, claro, tenho enorme interesse por novelas antigas. A moda, os cabelos, o jeito que as pessoas tinham de falar. Personagens fumando até em sala de espera de maternidade. São costumes e valores de outros tempos e que, quem sabe, podem explicar quem somos hoje”, compartilha.
Independentemente de quem assiste ou não, as novelas deixam um legado para a indústria do entretenimento a cada nova história televisionada, principalmente no Brasil. “Enquanto não temos um cinema nacional muito forte, em termos de indústria, vemos nossas telenovelas sendo exportadas para o mundo todo”, conta. De acordo com ele, alguns casos conhecidos são a exibição de “Mulheres de Areia” na Rússia, “Vale Tudo” em Cuba e “Escrava Isaura” (1977) na China. “Diante disso tudo, pode-se dizer que temos um legado imenso deixado pela teledramaturgia brasileira. É uma janela em que não só o mundo pode ver o Brasil, mas os próprios brasileiros puderam se reconhecer em meio a tantos personagens inesquecíveis”, finaliza.